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Mais uma "velha glória" entrevistada: João Batista Pereira!

João Pedro Baptista Pereira, "nome de guerra": JP! Foi no dia 8 de Maio de 2005 - na Benedita - que vestiu pela primeira vez a jaqueta do Grupo de Forcados Amadores de Montemor-o-Novo. Mais um elemento (mais uma enorme referência do nosso Grupo!) que se despediu das arenas em 2016, na Praça de Toiros de Montemor, dia 4 de Setembro, ganhando agora o estatuto de "Velha Glória"... Desde a sua Fundação que o Grupo de Montemor tem uma enorme tradição de grandes 1ºs ajudas. Forcados de referência que "naquele momento" estão lá, ajudando o forcado da cara a ficar na cara dos toiros. O JP é mais um dos eleitos que veio escrever a oiro a História do nosso Grupo e a página dos 1ºs ajudas! Forcado excepcional - com preciosas intervenções - teve escola e deixou escola. Fora de Praça, há muito que é também uma referência (com excelentes dotes oratórios!!!). Vamos lá entrevistá-lo!  

1-Como começou o teu gosto pelos toiros e, nomeadamente, pelo Grupo de Montemor?

Nunca tive uma grande ligação aos toiros quando era mais novo, a primeira vez que me recordo de ir a uma corrida foi em Montemor pela Feira de Setembro, em 1989. Tinha 8 anos e foi a corrida dos 50 anos do Grupo. A partir daí fiquei com um misto de fascínio e medo pela figura do toiro e uma admiração grande pelos forcados, principalmente pelo grupo da minha terra. Depois fui vendo algumas corridas ao vivo e na televisão e confesso que o que admirava mais era mesmo a figura do forcado. Tinha também muitos amigos que partilhavam histórias e conversas sobre o Grupo de Montemor e isso também contribuiu muito para tornar ainda maior a imagem que tinha do Grupo, mas nessa altura estava longe de pensar que iria ser forcado também.

2- Com que idade e porque é que começaste a ir aos treinos?

Foi um “namoro” que demorou alguns anos… Lembro-me que quando tinha 15 ou 16 anos tínhamos um grupo de amigos que gostava de ir a umas vacadas nas aldeias à volta de Montemor, pelas festas que aconteciam durante o Verão. Não me lembro como é que isso começou, lembro-me do Mantas, do PP Sousa, do Tita, o Pimenta, entre outros que já queriam ser forcados e andavam nos treinos. Recordo que nessa altura já dava umas primeiras ao Mantas que já pegava tudo o que mexia e aí era mesmo Mantinhas.. Mas nessa altura estava muito empenhado no Rugby e até achava que os forcados e o rugby não eram compatíveis e, portanto, não comecei logo. Passados uns anos, devia ter uns 18 ou 19 anos lembro-me de ir a um treino com o mítico KOY, no “Chico das Latas” e depois a outro em Pégoras. Já conhecia muita gente do Grupo e tinha muitos amigos que já eram forcados, mas ainda não foi dessa vez que me convenceram. Só passados mais uns anos, tinha eu já uns 21 ou 22 anos - numa noite de copos depois de um jogo de rugby - o Nini disse “amanhã estou lá à porta de tua casa para te levar ao treino” e eu já embalado respondi “está bem!” e assim foi, ele não falhou e eu comecei a ir aos treinos (a primeira e única vez que fui com uma ligeira ressaca…) e já não deixei de ir mais.

3- Qual foi a tua primeira fardação (com que cabo)?

A minha primeira fardação foi na Benedita… Com o cabo Guiga!


4- Destacaste-te como 1ª Ajuda. Mas onde e quando pegaste o teu primeiro toiro?

De caras só peguei um com a jaqueta vestida. Foi um toiraço com quase 700kg em Morais, mais ninguém o queria pegar, até o director de corrida queria mandar o toiro para trás… Mas a primeira pega, enquanto ajuda, foi nesse dia na Benedita em que dei uma primeira ao grande Noel Cardoso, que também se fardou nesse dia pela primeira vez.


5 - Quais foram os forcados que mais te marcaram (antigos e/ou actuais)?

Esta deve ser a pergunta mais difícil de responder.. É natural que num Grupo como o nosso, com tantos elementos com imenso valor, existam várias referências que vimos ou ouvimos e que nos dão uma grande motivação, pelo exemplo que foram e são quer como forcados, quer como pessoas. No entanto acho que temos sempre mais em consideração aqueles que fazem a mesma posição que nós queremos fazer. Desde o inicio que gostei de ser primeiro-ajuda e por isso, vi nos grandes primeiros-ajudas que o grupo tinha e teve, aquilo que eu ambicionava ser. Desde logo o intemporal Tó Lopes que antes de o conhecer pessoalmente já ouvia as suas histórias e depois tive o prazer de pegar com ele em praça (pois dá-nos quase sempre o gosto de se fardar e pegar em Setembro). Depois os primeiros-ajudas da altura, o Campilho, o Hugo Melo e o Tó Sá. Foram para mim grandes referencias e sinto que tive muita sorte em poder pegar com eles, de ver a sua garra, a sua dedicação, a sua valentia, a sua técnica. Podia aqui dizer muitos mais nomes, de amigos que fiz para a vida e que com muito orgulho posso dizer que peguei ao seu lado.


6 - Em resumo, quantos toiros pegaste? E já agora quantas épocas fizeste no activo?

Bem esta pergunta não é fácil de um ajuda responder. De caras, foi um (grande…), de caras com uma almofadinha à frente foram uns quantos, quando tínhamos que carregar as ajudas! Depois primeiras-ajudas perdi a conta, para não falar de segundas e terceiras. Mas por muitas ou poucas vezes que possa ter saltado à praça para ajudar a pegar um toiro pelo nosso Grupo, olhando para trás todas me parecem poucas, pois todas me deixam um sorriso na cara quando as recordo. Foram 12 épocas em que desde a primeira à ultima tive o prazer de me fardar em quase todas as corridas e de partilhar as alegrias e as tristezas, os desafios e as “babosas” e o mais importante de tudo: estar rodeado de amigos que dentro e fora de praça sempre me transmitiram uma força e uma alegria inexplicáveis!


7 - Qual o momento, ou momentos, que melhores recordações te trazem? E os menos bons?

Bons momentos são muitos, mesmo muitos! Recordo obviamente corridas mais importantes para o Grupo, ou mais marcantes para mim... Diria que aquelas que saltam logo à memória são as duas dos 6 Graves e dos 6 Silvas que pegámos no Campo Pequeno, os 6 Palhas em Évora, todas as corridas da Feira da Luz onde reencontramos tanta gente e fazemos uma grande festa, as digressões, as Ferras, enfim, muitos... Os maus também foram alguns: a partida do Zé Maria, sem dúvida, foi o pior e acho que nos marcou muito a todos e continua a fazer-nos muita falta.  As colhidas graves, desde a do Simão até à do Chico Borges há bem pouco tempo, foram também maus momentos para todos nós. A título pessoal posso dizer que, graças a Deus, não me posso queixar muito!


8 -Tens alguma história engraçada dos teus tempos de forcado que gostasses de partilhar connosco?

Histórias engraçadas há muitas.. Muitas vezes o problema é que quando elas acontecem a memória já está um bocadinho afectada!... No entanto recordo-me de algumas. Posso contar uma dos meus primeiros anos de forcado para ser mais antiga, as mais recentes ainda muitos se lembram. Fomos pegar a Mação. No dia antes, o Grupo tinha feito uma grande corrida em Vila Franca e como não tinha havido grande jantar porque havia corrida no dia seguinte – a de Mação – fizemos o jantar a sério em Santarém depois da dita corrida. Após pegarmos duas corridas limpas , pelo menos de mazelas, fomos a seguir ao jantar para a corrida da Sardinha Assada em Vila Franca e, claro, depois de um jantar do melho, com muita cerveja, estavamos cheios de peito... Quando saiu o toiro para os “curiosos”, o Guiga decidiu que o tínhamos que pegar e, entre outros, estava eu para ir à cara, o Tita a dar primeiras, o Noel a rabejar e o Guiga a “colocar” o toiro... Escusado será dizer que das duas vezes que lá fomos levámos uma tareia... O Guiga ao “colocar” o toiro calculou mal os terrenos e também levou a sua dose! Voltámos nessa madrugada para Montemor, no carro do Comendinha: eu, o Tita e o Guiga todos amassados! Quase posso jurar até que o Guiga gemia um bocadinho…

9 -O que consideras que o Grupo de Montemor (e todas as pessoas que dele fazem parte), trouxeram de positivo para a tua vida?

O Grupo de Montemor foi para mim uma grande escola de vida e de valores, a par do Rugby Clube de Montemor onde comecei bem mais cedo e foi também uma grande escola de valores. Quanto a mim, a grande diferença reside na antiguidade do Grupo e na história que essa antiguidade lhe trás. O facto de termos os antigos elementos connosco, o facto de termos uma história a honrar e o facto de sermos uma grande família, são grandes pilares para a nossa formação. Isso, sem duvida, ajudou a moldar a pessoa que hoje sou – para o bem ou para o mal… Mas este sentimento de pertença a algo tão maior como o Grupo de Montemor, faz-nos muitas vezes e sem nos apercebermos, ser melhores pessoas, mais que não seja por sabermos que a partir do momento em que fazemos parte da família do Grupo de Montemor, tudo aquilo que fazemos dentro e fora de praça reflete-se nesta mesma família, como se reflete na nossa família de sangue. Foi sempre isso que me transmitiram e aquilo que tentei transmitir aos mais novos. Ao elevarmos mais alto o nome do Grupo estamos também a elevarmo-nos a nós, e só por isso já somos melhores pessoas para a vida.

10 -Como foi o dia da tua despedida?

A despedida... Nunca é fácil despedirmo-nos de algo que se gosta. Sem dúvida que foi um dia diferente, talvez o tenha tentado viver mais intensamente, para guardar todas a recordações que podia e no final passou a correr! É um dia em que temos que ouvir os que nos dizem que devíamos ficar e fazer mais um ano ou dois, e a família a dar graças a Deus por sairmos. Nunca agradamos a todos!

11- Porque é que tomaste essa decisão e qual é o sentimento que se vive nesse dia?

Essa decisão foi tomada pela consciência que já estava na altura certa: às vezes queremos estender demasiado as coisas e não acaba bem. Sinto que dei ao Grupo muito menos do que ele me deu a mim. Teria que cá andar 100 anos, por isso é uma divida que vai ficar por pagar… Senti também que já era hora de dar oportunidade aos mais novos – ou menos velhos – para que o Grupo também se vá renovando. Senti também que já estava a abusar um bocado da protecção de Deus e da nossa Madrinha. Portanto - apesar de sair em consciência - fica um vazio muito grande que todos devem sentir, por ter terminado uma das fases mais gratificantes da minha vida. Sei que outras virão e que, se Deus quiser, serão igualmente boas ou melhores, mas vão sempre ficar gravados no meu coração estes anos de forcado no Grupo de Montemor!


12-Que mensagem queres deixar aos antigos, actuais e futuros forcados do Grupo de Montemor?

Todos sabem que sou um homem de parcas palavras, mas tenho alguma coisa a dizer! Primeiro agradecer a todos os que se cruzaram comigo nesta família que é o Grupo de Montemor. Agradecer a todos pela forma como me trataram sempre bem e, cada um ao seu jeito, contribuíram para que me dedicasse de corpo e alma. Tenho que agradecer especialmente àqueles que pegaram comigo e aos antigos elementos que mais me acompanharam. Agradecer aos Cabos que tive e que me deram todas a oportunidades: ao Guiga por me ter dado a oportunidade de ser primeiro-ajuda; ao Zé Maria pelos desafios que me proporcionou e pela confiança que sempre me transmitiu (ultimamente num plano superior); e ao "Tó escovinha" por me ter dado a oportunidade de estar na linha da frente até ao fim. Tenho que agradecer também à minha família, especialmente aos meus pais, irmã e mulher por me terem apoiado sempre e pela orações que rezaram por nós.

Aos actuais tenho a dizer que continuem a honrar a jaqueta de Montemor, dentro e fora de praça, dignificando e respeitando sempre a história feita com sangue e suor (e algumas lágrimas – já vos contei aquela vez que o Guiga levou uma sova em Vila Franca?) de todos os elementos que vestiram essa mesma jaqueta desde 1939. Foi uma honra fardar-me convosco. Aos futuros deixo as mesmas palavras e, não desistam, mesmo que as corridas acabem só a ser feitas com recortadores e tenham que pegar os toiro em pontas! Pensem sempre que a medicina também tem evoluído muito!!!… E não se esqueçam que vão ouvir muito (agora sim com razão) “no meu tempo é que era…”!!!

Rapidinhas:

- A tua melhor pega?

Campo Pequeno, Setembro 2015 – ajudei o Piri e fui-me deitar...

- Ganadaria de eleição?

Não sou esquisito

- Cavaleiro de eleição?

Luis Miguel da Veiga

- Toureiro de eleição?

Enrique Ponce

- Praça de eleição?

Montemor

- Um mestre?

O GFAM

- Uma paixão?

A minha mulher!

- Passatempo favorito?

Trabalho

- Clube?

Rugby Clube de Montemor

- Filme?

A árvore da Vida

- Prato?

Qualquer coisa que acompanhe um bom tinto.

- Destino de férias?

Costa Alentejana

- Terra para viver?

Montemor

- Melhor grupo de forcados do Mundo?

Ora…

Muito obrigado JP!

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